quinta-feira, 3 de março de 2016

TEORIA DO MERTHIOLATE

"Na minha infância, as crianças eram mais calmas. Sabe pq? Porque o Merthiolate ardia muito. As crianças de vez em quando deixavam de fazer merda pensando no Merthiolate. O Merthiolate tinha uma função pedagógica. O Merthiolate também tinha uma função psicológica. Porque aquele ardor dava a impressão de que os micróbios estavam sendo mortos. Você acreditava que de fato estava curando. Mercurio Cromo não ardia, então dava a sensação que curava menos. Quando o Merthiolate encostava na ferida, você sentia que ali tinha virado um grande campo de batalha. Você sentia o ardor da guerra. E quando o ardor passava é porque a gente tinha conseguido vencer o mal. Além do fator pedagógico e psicológico, o Merthiolate também tinha um apelo maternal. Porque a única coisa capaz de amenizar o sofrimento do Merthiolate eram as micropartículas de saliva materna. Quando a mãe soprava na ferida, o sofrimento magicamente reduzia. Além do fator pedagógico, psicológico e maternal, o Merthiolate também tinha uma função de geolocalização. Porque o ardor servia como sinalização se o Merhtiolate tinha sido de fato colocado no local correto. Se não ardesse, é porque não colocou direito. O Merthiolate era o GPS da ferida. Além do fator pedagógico, psicológico, maternal e de geolocalização, o Merthiolate também teve um impacto na personalidade das pessoas. O ardor incrível do Merthiolate moldou a personalidade da geração de crianças dos anos 80. As crianças desde cedo se acostumaram a ser homem, engolir choro, aguentar dor..
Hoje em dia.... o Merthiolate não arde mais!
Por isso essa geração emo, tudo cheio de frescura, onde tudo dói e todos choram por qualquer coisa…"


(a SEGUIR UM TEXTO QUE FIZ, SOBRE OS 2 ANOS DO LUCAS, ACHANDO QUE AQUELA IDADE É QUE ERA PROBLEMA...)


TERRIBLE TWO

Acabou a fase fofa. Li muito sobre os 2 anos e todas as novidades que viriam com ele. Apesar da boa educação, da doçura, do senso de independência, do bom garfo e inteligência que é, meu filho captou as coisas terríveis que os 2 anos oferecem. Manha, birra, teimosia, raiva, arrogãncia, ansiedade, braveza, escrotice, ruindade, enfim...pacote compelto. Falo, explico, ouço, conto até mil, ponho de castigo e até bato. Sim! Bato! Medindo força, tirando um pó de leve, mas não dá pra passar ileso pelas palmadas. Se não, não há limites. Pouco me ouve, aliás ouvido seletivo, só escuta o que lhe convém. E convém a hora do suco, do chocolate, do teatro, do passeio e da escolha do brinquedo. Banho, almoço, parar as cambalhotas, não subir no gato e não riscar a parede, a surdez é absoluta. Difícil não perder a cabeça ou chorar numa situação assim. E têm sido noites difíceis. De muito choro das duas partes, muito cansaço físico e mental e muita barganha. Aprendi a negociar...se não comer, não chupa chupeta, se não tomar banho não vê tv...infelizmente, criando um mercenariozinho. Por mais que eu seja contra ver muita tv, ela é um mal necessário. E justo entre às 19h e 21h preciso mais do que tudo do Bob Esponja pra me ajudar nas tarefas da casa e nas 2 horas de paz. Uma violência se segue, e eu ali diante de um filho hipnotizado e cruel diante dos bofetões que o Calça Quadrada desfola no coitado do amigão Patrick. Me horrorizo com a diversão do Lucas vendo olhos saltarem das órbitas, caras ficando deformadas com portadas, peixinhos sendo ridicularizados, chefes humilhados e mais milhares de atrocidades praticadas por aquele ser esponjudo que mora num abacaxi. Abacaxi instigado por mim, que simplesmente deveria desligar a tv ou procurar uma opção mais meiga, tranquila, condizente com os poucos 2 anos. Recebo um abraço assim que o desenho acaba. E um eu te amo, mamãe. Respiro aliviada, retribuindo o gesto e acreditando com todas as forças, que aquilo é uma fase, independente do Bob Esponja, afinal, cresci vendo Pica-Pau e Tom & Jerry, e eles não me parecem nada sãos olhando com a maturidade de hoje. E não me tornei um adulto autoritário, egocêntrico e sanguinário, não distribuo maldades, muito menos saio socando o mundo. E naquela fase dos 2 anos, eu também pintei várias paredes, subi em muitos gatinhos e certamente, barganhei a chupeta após o jantar...
... levanta, cola figurinha da Peppa, dança o Peixonauta pra abrir a Pop, cata a caixa de lápis de cor do chão, insiste pra criatura entrar no banho, insiste pra sair do banho, sai correndo porque não quer pentear o cabelo, senta...Levanta de novo pra limpar o cocô, faz a sopinha, tenta dar a sopinha..., senta..., levanta porque é hora da expedição com o Dooooooooooooki...senta, acha que vai ver a novela..., levanta pra pegar o quebra-cabeça que tá no alto do armário, senta...levanta, faz tetê...cobre porque tá frio, senta, senta nada que o desenho acabou e tem que pôr o DVD... Porque a vida é um eterno agachamento!!

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