quinta-feira, 3 de março de 2016

A LOUCA DO TECIDO



Ontem teve circo. 
Palhaço, mágico, trapezista, globo da morte e até um gorila. 
Crianças eufóricas. Mães felizes com a diversão dos seus pimpolhos.
De repente, entre trapalhadas e malabares surge ela: a louca do tecido.
50kg de um corpo escultural e muita flexibilidade envoltos num micro maiô nude e turquesa pegado no paetê.
No rolar e enrolar de panos, a única preocupação era encaixar os pés e mãos nos lugares certos, pra deslizar feito pluma a uns belos metros do chão.
Maridos boquiabertos. Filhos hipnotizados.
E por um milésimo de segundo antes do próximo tranco no pano, desejei tanto ser a moça do tecido. Desejei desligar de todos os meus checklist mentais, dos compromissos com a casa, com a volta ao trabalho, com a rotina tão automática, com as respostas prontas...
Não pelo corpo (um pouco vai...rs), nem por ingratidão à minha vida que amo!
Mas pelo lúdico. Pela magia. Pelo mistério de desaparecer diante de nossos olhares curiosos.
Por olhar de cima rostos tão carentes de adrenalina, vidas mais de ponta cabeça que a dela. Fechei os olhos e desejei ser naquele instante, o centro das atenções. Pra receber os aplausos sozinha. Causar um magnetismo que nem fazendo o melhor jantar, vou conseguir.
Talvez ela seja solitária lá do alto. Talvez ela não tenha grupos no whats, mas invejei essa solidão. Invejei os momentos de risco, a quantidade de "oooohhh"da platéia. Invejei aquele foco de luz naquele rosto maquiado. O silêncio concentrado no próximo passo no ar. Será que ela chora no banho?
Será que ela se cobra por perfeição? 
Será que a coluna dela também dói? Ela faz mercado? Faz planilhas?? Paga contas? Toma umas? Marca médico pros filhos? Tem amigas?
Não sei dizer, mas invejo. 
Invejo a moça louca..., a moça que preferiu o circo. A moça que treina desafios diferentes dos meus, a moça que voa louca e equilibradamente. Que fica lá no alto, se contorcendo e se exibindo pra minha vida, tão cheia de truques, tão pés no chão.

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