quinta-feira, 3 de março de 2016

LÁ MAIOR

Turbilhão de emoções, sensações e memórias jorraram queném tsunami depois desses shows.
Fechei os olhos e me vi em 1986 - Sala de casa, tapete arrastado de lado....Rádio Cidade. REC pausado pra gravar a música desde o começo. Horas tentando. Mais horas escutando e dançando feito louca em frente ao espelho. Cara magra, gambitos finos, espinha no queixo, aparelho nos dentes. Conflitos externos, internos. Será que vou pro Rancho Ranieri?
Um cheiro de bolacha Mirabell, daquelas pequenininhas, depois Buballoo de morango. Laquê na franja, saia balonê, pogobol com a molecada do prédio.
Coração disparado pela ansiedade da festa com dança da vassoura. No colégio, a disputa pela arquibancada, só pra ver os meninos jogando. Com camisa e sem camisa. Moleton da Benetton na cintura, a bedel louca mandando tirar. Barulho dos estojos rosas, com 500 divisórias (minhas miga quarentona vão pirar nessa parte). Canetas perfumadas, pastas de papéis de carta embaixo daquelas carteiras verdes com buraco. Bafo no recreio, lanche do Seu Nilo, sorvete de groselha na saída. Paradinha nos estudos pra Sessão da tarde: Curtindo a vida adoidado, os Goonies, a Garota de Rosa Shocking. Como eu quis aquele vestido!
Em Wembley, Freddie Mercury fazia o coro épico de “Love of my life”.
Presente de aniversário era vinil e K-7. Uma explosão de coisas boas: Bon Jovi, R.E.M, Madonna, Cindi Lauper, Van Halen, Black Sabbath, Roxette...Kid Abelha, Legião, Paralamas, Engenheiros do Havaí, mas o que me doía era Astronautas de Mármore. Nunca entendi o lance do Machado pra quebrar o gelo, mas baixava a minha cabeça pra tudo com 17 anos...
Uma vontade louca de ganhar a tesourinha do Mickey, comprar Baton, ter o 1º sutiã.
Propaganda da Faber Castell com todos aqueles traços virando desenhos animados.
Ahhhhh que delícia e que dor essa época. Tudo traduzido em cifras.
Ser SUPERFANTÁSTICO com Balão Mágico. Beijinho, beijinho, tchau, tchau, era Xuxa sumindo na nave. Histórias de um sítio do Pica-Pau amarelo: “Tchurutchutchutchutchutchutchu”...
Desastre da Challenger. Todos os astronautas mortos em 7 segundos de decolagem. Nada de som na subida no letreiro do JN.
Embalando a tristeza, a esperança pós ditadura, enterrava-se no luto por Tancredo Neves, e Coração de Estudante virava hino pelas ruas. Era o Brasil “querendo falar alguma coisa”.
Aulas incessantes de Ballet: “sur les pointes”, pliè, petit battement tendu, em dehors, em dedans...ensaio pra ser Cisne, e um dramático Tchaikovsky ao piano.
Final de semana no sítio regido pelos clássicos do Seu Carlos e agudos de Berenice e Teixeirinha. Churrasco bom chimarrão, fandango, trago e mulher...
Às 18h, religiosamente, a pontinha da agulha tocava no vinil, alertando os primeiros acordes de Ave Maria, de Gounod. Jogo de taco interrompido até a última revoada dos pombos. Cantigas de roda, brincadeiras cantadas. “Um homem bateu em minha porta e eu a-bri”...falta de ar, pulando corda.
3 minutos...e me transportei pra mais de 30 anos. 
Todos os seus cheiros, gostos e nostalgias estavam lá. 
Muito mais do que um lá maior é descobrir que a vida tem trilha sonora. 
Certeza de um tempo que nunca DESCOLORIRÁ!

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