Parece
que tem alguma coisa ali, uma sombra, um movimento no escuro, um
barulhinho estranho, um chacoalhar de folhas..., mas não aparece
nada.
Marido
viajando a trabalho, filho de férias na vó.
Sobrei
aqui, sozinha, nessa Itu gigante.
Até
umas sete da noite ainda deu pra disfarçar. Tem claridade, coisinhas
da casa por arrumar, adrenalina do trabalho saindo do corpo, banho
sem interrupções, até tirar a maquiagem consegui.
Mas
agora, o burburinho quietou.
Essa
era hora de desenho com Lucas. Entoei: “a bruxa fala, fala, fala, a
bruxa é mala, mala, mala, pra se livrar desse baú, detetives do
prédio azul...”. Affffffffff, tem bruxa na letra, pára!
Os
gatos são meu termômetro...viram a cabeça e miam pra parede esses
pestes. Eriçam, acalmam, eriçam de novo...
Sobem
os calafrios. Deus não me dê sede pra ter que pegar água na
cozinha...melhor ficar encolhida num canto até o arrepio passar.
Ventania
e janela batendo, um clássico por aqui e aquele uuuuuuu, uuuuuuu,
uuuuu, do tipo, corre minha filha, corre que o bicho papão vai te
pegar.
Luzes
acesas, todas, dane-se a conta de luz esse mês. The Walking Dead
hoje nem pensar. Ainda mais quando a presença de zumbi dentro do
guarda-roupa do quarto é muito real. Um barulhinho lá looooooooonge
e teimosa, ao invés de ficar quieta, vou dar uma espiadinha. Chego
mais perto do barulho, no quarto do Lucas...medo da porra! O som
começa a ficar familiar e um misto de cagaço com risada de canto de
boca começa a se desenhar. Batman seu filho da puta, tinha que
desembestar a conversar justa agora?
Era
o brinquedo tagarela que funciona com sensor. Mas sensor de que
gente?
E
faltam só 10 páginas pra eu terminar meu livro. Poxa. Rezei tanto
pra ter uns momentinhos essa semana pra conseguir terminar, mas cadê
coragem? Tá justo na parte dos umbrais, espíritos obsessores
tentando resgate, não vou dar conta de ler e fingir maturidade com o
plano espiritual. Mal simulei uma lidinha e já senti alguém sentado
na cama, assim, quase esmagando meu pé, sabe quando a gente puxa a
coberta e toma um tranco? Mãe do céu, e o apartamento cada vez mais
escuro e cheio de sombras. Ainda se fosse São Paulo, tinha umas
freadas de carros, sirenes, a farra do bar da facu na rua. Que nada.
Aqui até grilo dorme cedo.
E
a casa parece que ganha vida...portas rangem, geladeira estala,
chuveiro pinga.
Remedinho
pra dormir será? Amigas do whats, vamos conversar?
Alguém
vivo aí me lendo, topa uma pizza? Uma caminhada na praça?
Qualquer
coisa que afaste solidão. Solidão que a gente deseja tanto, mas
quando tem, não sabe o que fazer com ela. E hoje é só o primeiro
dos 5 atordoantes dias que não vai ter um “manhê” ou “amor
você sabe onde tá?” Sei tudo gente, voltem!
Fico
imaginando o tamanho do monstro. Daquela cena dos Caça-Fantasmas que
alguém falava “Não pense em nada”. E lá vinha o monstro de
Marshmellow, lembra?
Tô
bem assim: “não pense, não pense”...mas só me vem a leva toda
do Noites do Terror na cabeça. Tem vodka no freezer, quem sabe um
golinho pra relaxar a tensão?

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